Nova espécie encontrada na Argentina pode ter sido especializada na captura de peixes e revela um modo de vida incomum entre parentes dos velocirraptores.
(Representação artística-gerada-por-IA-dinossauro carnívoro Kank australis/Créditos:Image-fx)Uma descoberta realizada no extremo sul da Argentina está ajudando paleontólogos a compreender melhor a diversidade dos dinossauros que viveram nos últimos milhões de anos do período Cretáceo.
Pesquisadores identificaram uma nova espécie de dinossauro carnívoro chamada Kank australis, um animal que apresentava características anatômicas incomuns e que pode ter sido adaptado para caçar em ambientes aquáticos de forma semelhante às atuais garças.
O estudo foi publicado em 28 de maio no Journal of Vertebrate Paleontology e foi conduzido por uma equipe liderada pelo paleontólogo Matías Motta, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, em Buenos Aires.
Os fósseis foram encontrados na Formação Chorrillo, localizada na província de Santa Cruz, na Patagônia argentina.
Descoberta exigiu anos de investigação
Fóssil encontrado em 2024 foi decisivo para identificar nova espécie
Os primeiros vestígios do animal foram localizados em 2018, mas os restos encontrados estavam muito fragmentados para permitir uma classificação precisa.
Entre os materiais recuperados estavam dentes, vértebras e ossos dos pés.
Somente em 2024, após a descoberta de uma vértebra cervical em melhor estado de preservação, os cientistas conseguiram reunir evidências suficientes para confirmar que se tratava de uma espécie até então desconhecida.
A nova análise revelou que o animal pertencia ao grupo dos unenlagiídeos, uma linhagem de dinossauros terópodes de pequeno e médio porte que habitou regiões da América do Sul, Antártica, Austrália e Madagascar durante o Cretáceo Superior.
Anatomia sugere comportamento semelhante ao de aves aquáticas
Estrutura do pescoço pode ter favorecido a captura rápida de peixes
O aspecto que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a anatomia do pescoço. A vértebra cervical apresentava adaptações associadas à fixação muscular e à proteção de vasos sanguíneos, características comparáveis às observadas em aves aquáticas modernas.
Além disso, o osso possuía uma estrutura pneumática altamente desenvolvida, contendo cavidades preenchidas por ar que reduziam seu peso.
Essa configuração teria permitido movimentos rápidos e precisos do pescoço, favorecendo ataques velozes contra presas aquáticas.
Com cerca de 2,5 a 3 metros de comprimento quando adulto, o Kank australis pode ter adotado uma estratégia de caça bastante diferente daquela normalmente associada aos parentes dos velocirraptores, conhecidos por seu comportamento predatório terrestre.
Evidências apontam para uma dieta baseada em peixes
Focinho alongado e dentes especializados reforçam hipótese
Outras características anatômicas fortalecem a interpretação de que o animal era especializado na captura de organismos aquáticos.
Os pesquisadores identificaram um focinho alongado e uma grande quantidade de dentes equipados com cristas afiadas, ideais para agarrar presas escorregadias.
Além disso, os fósseis foram encontrados próximos a restos de peixes, um detalhe que contribui para a hipótese de que a alimentação do dinossauro era baseada principalmente em recursos aquáticos.
Segundo os autores do estudo, essas evidências indicam que o Kank australis provavelmente ocupava um nicho ecológico distinto dentro dos ecossistemas do fim da era dos dinossauros.
Como era a Patagônia há 70 milhões de anos
Região possuía rios, lagoas e grande diversidade de vida
Atualmente marcada por paisagens áridas em diversas áreas, a Patagônia apresentava condições bastante diferentes durante o final do período Cretáceo.
Há cerca de 70 milhões de anos, a região era caracterizada por um ambiente úmido, repleto de rios sinuosos, lagoas temporárias, córregos e abundante vegetação aquática.
Nesse cenário, o Kank australis compartilhava habitat com peixes, anfíbios, moluscos, insetos, tartarugas e pequenos mamíferos. Ao mesmo tempo, precisava conviver com grandes predadores.
Entre eles estava o Maip macrothorax, um gigantesco megaraptorídeo que ultrapassava os 10 metros de comprimento e provavelmente representava uma ameaça constante para animais menores.
Nome da espécie homenageia tradição indígena
Referência está ligada ao povo Aonikenk
O nome escolhido para a nova espécie também possui significado cultural. De acordo com os pesquisadores, o termo Kank faz referência a uma antiga lenda do povo Aonikenk, também conhecido como Tehuelche.
Segundo a tradição, uma grande ema ancestral teria corrido com tanta velocidade que suas pegadas ficaram registradas no céu, formando a constelação do Cruzeiro do Sul. Já o termo australis faz alusão à localização meridional onde os fósseis foram encontrados.
Descoberta amplia conhecimento sobre os últimos dinossauros da América do Sul
Os cientistas acreditam que o achado representa uma importante contribuição para a compreensão da biodiversidade existente no extremo sul da América do Sul pouco antes da extinção dos dinossauros.
As escavações na Formação Chorrillo devem continuar nos próximos anos, com a expectativa de que novos fósseis revelem detalhes adicionais sobre a biologia, comportamento e papel ecológico do Kank australis dentro daquele antigo ecossistema.
A descoberta mostra que ainda existem importantes capítulos da história da vida na Terra aguardando para serem revelados sob o solo da Patagônia.
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Fontes: Aventuras na História Journal of Vertebrate Paleontology



