Pesquisa com satélites mostra que derretimento do gelo marinho na Antártida altera cadeia alimentar, favorece salpas e ameaça equilíbrio climático global
Antártida está passando por uma transformação acelerada que preocupa cientistas em todo o mundo.
Um novo estudo financiado pela Agência Espacial Europeia (ESA) revelou que o desaparecimento do gelo marinho na Antártida já está modificando profundamente a vida marinha do Oceano Austral.
Segundo os pesquisadores, a perda de gelo não representa apenas um sintoma das mudanças climáticas, mas o início de uma reorganização ecológica capaz de impactar espécies-chave, ciclos de carbono e até o clima global.
Gelo marinho da Antártida encolheu drasticamente
Durante décadas, a cobertura sazonal de gelo ao redor da Antártida permaneceu relativamente estável. Porém, cerca de dez anos atrás, cientistas registraram uma queda abrupta.
Uma área oceânica quase do tamanho da Groenlândia perdeu sua cobertura sazonal de gelo em poucos anos.
O que inicialmente parecia uma oscilação temporária agora é interpretado como o início de uma nova era de baixo gelo antártico.
Esse fenômeno chamou atenção porque a velocidade da mudança superou previsões de diversos modelos climáticos.
Satélites revelaram mudanças invisíveis a olho nu
Para entender o impacto ambiental, uma equipe liderada pelo Plymouth Marine Laboratory utilizou dados orbitais em vez de pesquisas tradicionais em campo.
Os cientistas analisaram medições do projeto Ocean Colour da ESA, que monitora como a luz solar é refletida pela superfície oceânica em diferentes comprimentos de onda.
Esses sinais permitem identificar:
- quantidade de fitoplâncton;
- tipos dominantes de microalgas;
- produtividade biológica marinha;
- mudanças sazonais no oceano;
- transformação de habitats polares
Fitoplâncton aumentou em grande parte do Oceano Austral
Os resultados surpreenderam os pesquisadores. Grandes áreas remotas passaram de níveis muito baixos para níveis moderados de produtividade biológica.
Em média, quase 70% da região estudada apresenta hoje maiores concentrações de fitoplâncton durante o verão em comparação ao período anterior à redução do gelo.
O fitoplâncton é fundamental porque forma a base da cadeia alimentar marinha antártica.
Krill pode perder espaço para salpas
Embora o aumento do alimento pareça positivo, os cientistas alertam para um efeito colateral importante: quem mais parece estar se beneficiando são as salpas, organismos gelatinosos filtradores.
Já o krill antártico, pequeno crustáceo essencial para o ecossistema, depende do gelo marinho como abrigo e área de reprodução.
O krill alimenta:
- baleias;
- focas;
- pinguins;
- peixes;
- aves marinhas.
Se o krill diminuir e as salpas se tornarem dominantes, toda a cadeia alimentar pode ser alterada.
A imagem acima foi capturada pelo satélite Copernicus Sentinel-2 em 2021,mostra uma proliferação de fitoplâncton no Mar de Ross.Créditos:©ESA
Impacto no clima global preocupa especialistas
O krill também tem papel importante no sequestro natural de carbono, ajudando a transportar matéria orgânica para as profundezas do oceano.
As salpas, por outro lado, desempenham esse processo de forma diferente e menos eficiente em determinados contextos ecológicos. Isso pode afetar:
- armazenamento de carbono no oceano;
- ciclos de nitrogênio;
- equilíbrio de nutrientes;
- biodiversidade polar;
- regulação climática global.
Antártida também enfrenta mudanças inesperadas nos oceanos
Outro estudo recente da ESA mostrou que águas superficiais ao redor da Antártida estão ficando mais salgadas, mesmo com a perda de gelo, algo contrário ao esperado.
Segundo pesquisadores, esse processo pode facilitar a subida de águas mais quentes das profundezas, acelerando ainda mais o derretimento do gelo por baixo.
Isso sugere que a região pode estar próxima de um ponto crítico climático.
Por que a Antártida importa para o mundo inteiro
Muitas pessoas associam a Antártida a um local distante, mas o continente influencia diretamente o planeta.
Mudanças no gelo antártico afetam:
- correntes oceânicas globais;
- clima da América do Sul;
- nível do mar;
- produtividade pesqueira;
- eventos extremos em diferentes continentes.
O que acontece no polo sul pode repercutir em escala mundial.
A nova pesquisa mostra que o derretimento do gelo marinho na Antártida não é apenas um sinal visual das mudanças climáticas.
Trata-se de uma transformação profunda que já afeta organismos microscópicos, espécies-chave e processos naturais essenciais para o planeta.
Com a possível consolidação de uma nova era de baixo gelo, a Antártida se tornou um dos principais indicadores do futuro climático da Terra.



