Projeto aprovado pelo Parlamento cria plano de contingência para transferir funções do governo em caso de desastre e coloca cidades como Osaka, Sapporo, Nagoya e Fukuoka na disputa
Imagem-ilustrativa-gerada-por-IA-Japão/Créditos:Image-fxDurante mais de um século e meio, Tóquio consolidou-se como o principal centro político, administrativo e econômico do Japão.
Agora, o país começa a preparar uma alternativa para o caso de a capital ficar impossibilitada de funcionar após um terremoto de grandes proporções ou outra emergência de escala nacional.
O Parlamento japonês aprovou uma legislação que prevê a criação de uma estrutura de capital reserva. A proposta pretende garantir a continuidade das atividades essenciais do Estado caso ministérios, órgãos públicos e outras instituições estratégicas não consigam operar normalmente em Tóquio.
A decisão desencadeou uma disputa entre governos regionais.
Pelo menos 13 cidades e províncias demonstraram interesse em sediar parte dessa estrutura alternativa, enxergando na iniciativa não apenas uma oportunidade de segurança nacional, mas também a possibilidade de receber investimentos, melhorar a infraestrutura e estimular a economia local.
Por que o Japão quer uma segunda capital?
A ideia de uma capital alternativa está diretamente relacionada à vulnerabilidade sísmica do arquipélago japonês. O país está localizado em uma das regiões de maior atividade tectônica do planeta e convive regularmente com terremotos de diferentes intensidades.
Tóquio, apesar de contar com uma das infraestruturas urbanas mais preparadas do mundo para enfrentar desastres naturais, concentra uma quantidade extraordinária de pessoas, empresas, instituições financeiras e órgãos governamentais.
A região metropolitana da capital reúne aproximadamente 37 milhões de habitantes.
Essa concentração faz de Tóquio o coração do Japão, mas também cria um problema estratégico: um desastre de grandes proporções poderia afetar simultaneamente uma parcela significativa das estruturas necessárias para manter o funcionamento do país.
A nova legislação procura criar justamente um plano B. Se a capital for atingida por um terremoto, tsunami ou outra emergência capaz de interromper suas atividades, parte das funções governamentais poderá ser deslocada para outra região.
A preocupação ganhou ainda mais força após novos tremores registrados em 2026. Em 23 de agosto, um terremoto de magnitude 5,9 atingiu o sul da província de Ibaraki, ao norte de Tóquio.
O abalo foi sentido na capital e em outras áreas próximas e deixou dezenas de pessoas feridas, segundo autoridades japonesas. Não houve alerta de tsunami.
O trauma deixado pelo terremoto de 2011
A preparação também é influenciada pela experiência do Japão com o terremoto e tsunami de 2011.
Em 11 de março daquele ano, um terremoto de magnitude 9,1 atingiu o nordeste do país e provocou um tsunami devastador. Mais de 19 mil pessoas morreram e o desastre desencadeou ainda o acidente nuclear de Fukushima.
Embora o epicentro tenha ficado a centenas de quilômetros da capital, o episódio mostrou como um desastre de grandes proporções pode produzir consequências que ultrapassam muito a região diretamente atingida.
Desde então, o Japão ampliou investimentos em prevenção, sistemas de alerta, construção resistente a terremotos e planejamento de emergência. A possibilidade de uma grande interrupção das atividades de Tóquio, entretanto, continua sendo uma preocupação para as autoridades.
O país também registrou outro forte terremoto em abril de 2026. O tremor, de magnitude 7,5, atingiu a costa nordeste japonesa e provocou alertas de tsunami, com ondas de até 80 centímetros posteriormente registradas.
Esses eventos não significam que um grande terremoto esteja prestes a ocorrer em Tóquio. Eles reforçam, porém, a necessidade de planejamento em um país acostumado a lidar com riscos sísmicos.
Osaka aparece entre as principais candidatas
A disputa pela futura capital reserva envolve diferentes regiões, cada uma tentando apresentar argumentos para demonstrar que possui condições de assumir funções estratégicas do governo.
Osaka está entre as favoritas. Segunda maior região metropolitana do Japão, a cidade possui grande infraestrutura urbana, importante atividade econômica e conexões ferroviárias e aéreas que facilitariam a circulação de pessoas e recursos.
A candidatura também possui forte apoio político. O Japan Innovation Party, ligado à política regional de Osaka, há anos defende a descentralização do poder e uma redução da concentração administrativa em Tóquio.
A cidade chegou a desenvolver até mesmo uma estratégia própria de divulgação de sua candidatura, mostrando que a disputa pela posição deixou de ser apenas uma discussão técnica e passou a envolver também política e identidade regional.
Existe, entretanto, um obstáculo importante. Osaka também está sujeita a terremotos e outros desastres naturais. Por isso, críticos questionam se uma cidade igualmente exposta a riscos sísmicos seria a melhor opção para funcionar como centro alternativo do governo japonês.
Sapporo aposta na distância das áreas mais vulneráveis
No extremo norte do arquipélago, Sapporo apresenta uma estratégia diferente.
A cidade está localizada em Hokkaido, distante de algumas das principais zonas sísmicas que preocupam as autoridades japonesas, especialmente o Nankai Trough, uma extensa área de subducção ao sul do arquipélago.
Esse fator geográfico pode representar uma vantagem para uma estrutura que teria justamente a função de manter o governo funcionando quando outras regiões estiverem comprometidas.
Sapporo também possui infraestrutura urbana, aeroportos, capacidade hoteleira e uma população significativa, características consideradas importantes para receber temporariamente órgãos nacionais.
Nagoya e Fukuoka também entram na corrida
Nagoya utiliza sua força industrial como um dos principais argumentos. Localizada entre Tóquio e Osaka, a cidade é um dos grandes centros manufatureiros do Japão e possui forte ligação com setores estratégicos da economia nacional.
Para seus defensores, essa estrutura poderia facilitar a manutenção de atividades econômicas essenciais durante uma eventual crise que atingisse a capital.
Fukuoka, por outro lado, destaca sua localização no sudoeste do país. A cidade é um importante centro econômico e tecnológico da ilha de Kyushu e possui conexões internacionais relevantes com outros países asiáticos.
A diversidade das candidaturas mostra que o governo terá de avaliar muito mais do que tamanho populacional ou capacidade econômica.
Distância de áreas de risco, infraestrutura, sistemas de comunicação, transporte, segurança e capacidade de abrigar órgãos públicos estarão entre os fatores decisivos.
Uma segunda capital também pode mudar a economia japonesa
A criação de uma capital reserva não é apenas uma questão de segurança nacional.
A possibilidade de receber investimentos públicos para construir instalações administrativas, centros de dados, redes de comunicação e infraestrutura de emergência pode representar uma transformação econômica significativa para a cidade escolhida.
Também existe a expectativa de que empresas privadas acompanhem esses investimentos, criando novos empregos e fortalecendo setores como construção, tecnologia, serviços e transporte.
Esse aspecto está ligado a um problema mais amplo enfrentado pelo Japão: a concentração de população e oportunidades em Tóquio.
Enquanto a capital continua atraindo moradores e empresas, diversas regiões do país enfrentam redução populacional e envelhecimento. A criação de um novo polo nacional poderia ajudar a distribuir parte das atividades econômicas pelo território.
Por outro lado, especialistas também levantam uma preocupação: concentrar investimentos em uma nova grande cidade pode simplesmente transferir o problema para outro ponto do país, sem necessariamente resolver o esvaziamento das áreas menores.
Quanto custará preparar uma capital de emergência?
Outro desafio será financeiro.
Uma capital reserva não poderia funcionar apenas com prédios administrativos comuns.
Para assumir funções nacionais durante uma emergência, seria necessário contar com sistemas de comunicação independentes, infraestrutura digital, centros de dados, instalações governamentais, redes de energia e transportes capazes de continuar funcionando mesmo diante de um grande desastre.
Além disso, seria necessário estabelecer quais ministérios e órgãos poderiam ser deslocados, quais atividades precisariam permanecer em Tóquio e quanto tempo seria necessário para colocar o plano em operação.
A legislação aprovada estabelece a possibilidade de uma estrutura alternativa, mas vários detalhes ainda precisam ser definidos pelo governo.
Isso significa que a escolha da cidade será apenas uma das etapas. Depois dela, virá um longo processo de planejamento e investimentos para transformar a candidata escolhida em um verdadeiro centro de emergência nacional.
Japão precisa escolher entre proteger Tóquio e criar uma alternativa
A discussão sobre uma segunda capital revela uma questão estratégica que o Japão terá de enfrentar nos próximos anos.
Uma possibilidade é concentrar esforços ainda maiores na proteção de Tóquio, reforçando edifícios, sistemas de energia, telecomunicações, transporte e estruturas governamentais.
A outra é criar uma alternativa suficientemente preparada para assumir parte dessas funções caso a capital fique temporariamente incapacitada.
Na prática, o país pode acabar adotando as duas estratégias.
Fortalecer Tóquio continua sendo essencial, enquanto uma estrutura descentralizada pode funcionar como uma espécie de seguro institucional contra uma catástrofe de grandes proporções.
Ainda não existe uma data oficial para a escolha definitiva da cidade que poderá receber o status de capital reserva.
Enquanto o governo japonês estabelece os critérios, governos locais já intensificam suas campanhas para conquistar uma posição que poderá representar bilhões em investimentos e uma mudança importante no mapa político e econômico do país.
Mais do que uma disputa entre Osaka, Sapporo, Nagoya, Fukuoka e outras regiões, a iniciativa representa uma tentativa do Japão de responder a uma pergunta difícil: como manter um país inteiro funcionando se o centro de seu governo deixar de funcionar?
Você acredita que o Japão deveria investir em uma segunda capital ou concentrar os recursos na proteção e preparação de Tóquio?
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Fonte: Veja.abril



